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Olha quem te Olha!

Olha! Tem um olho te olhando... e você não consegue ver onde está este olho e de onde vem isso. Tem um Olho teu, esse que está na face, aliás são dois, não são? Mas poderiam ser vários e mesmo que fossem infinitos não poderiam ver UM apenas, esse UM Outro olho estranho. Tão estranho quanto familiar, como já escreveu Freud sobre estes dois modos afetivos (aquilo que é estranho pode ser familiar e vice-versa). Exato aquilo que te olha “por dentro” ou “de dentro” e que você não sabe localizar de onde isso vem. Existe um olhar para o qual não está-se apto a olhar. É mais ou menos como sustentar olhar direto para os raios solares sem filtros. Há uma impossibilidade aí. Pontos cegos.

Esse Olho, invisível à olho nu, – interno - foi “implantado” junto com todo um aparato destinado a te cuidar, a te vigiar, sobretudo. Cuidar tem também o sentido de olhar, de guardar. Pense num pastor que “olha” por suas ovelhas, que as guarda. Ele nelas manda, define suas vidas, seus rumos e toca o rebanho como bem entende e quer. Ovelhas em rebanho não tem ingerência sob seu destino. Não tem consciência. Apenas seguem o líder. De cabeça baixa, como se isso fosse o normal, enxergam seus capins como se a ração fosse - de forma metonímica - a parte pelo todo. Ou seja, o capim é o mundo da ovelha.

Na questão específica do humano, esse olhar que vem de algum lugar – que por falta de melhor nome ou localização – dizemos que vem “de dentro”, ele é capaz de te fazer parar, pensar, e, não raro, de te fazer sentir-se constrangido e mesmo merecedor de punição. Tudo isso sem que você perceba. Aliás, você já está tão acostumado com esse olhar que ele parece não existir como externalidade crítica mas como elemento normal, esperado. Só que, de fato, esse olhar instalou-se. Sorrateiramente, silenciosamente.

Mas como foi “implantado” este olhar de “dentro”? Veja que ele é fruto do Olhar do Outro, do olhar que mamãe e papai lhe emprestaram e te acostumaram a usar. Titio, titia, vovó, a família toda e também o professor, o guarda, o padre e uma infinidade de alteridades contribuíram e contribuem para a permanência deste corpo estranho. Esse Olho interno é uma prótese que se fez necessária, mas, ao mesmo tempo, precisa ser avaliado, reavaliado, dimensionado, redimensionado, castrado se você quiser ser um pouco mais dono de si e de seus atos.

Freud chamou de Superego a este tipo de controle – esta censura interna – que faz com que alguém seja capaz, por exemplo, de se sentir envergonhado com seu próprio corpo, com suas próprias palavras, pensamentos, sonhos, fantasias. Instala-se uma espécie de mundo interno que pode ser de horror, de violência.

O Superego, vai dizer Freud: é o “herdeiro do complexo de Édipo”. Funciona mais ou menos assim: neném quer mamãe pra sempre mas pra sempre não pode haver. Neném quer papai pra sempre mas pra sempre não dá. Então, neném quando vai ficando mais crescidinho, vai se tornando mais gentezinha e com isso vai introjetando o seguinte negócio: é melhor você ser como papai e mamãe (se identificar) do que possuir (fazer amor simbiótico ou coisa que o valha) papai e mamãe pra sempre. Essa troca de ter para ser faz com que a criança renuncie, em uma certa medida, às suas paixões primevas e passe, inclusive, a criar um afastamento do “erotismamor” que ela sentia pelos pais. Isso fica muito claro na “há dor ler essência” quando a garotada já se acha total, já fica numa de namorar, de se apaixonar e ter vergonha dos próprios pais. No fundo, esta troca é necessária porque senão seria tudo um (in)cesto de gatos, balaio de ratos, etc e tal.

Então, a coisa se faz instalar como olhar “interno” onde os limites e mesmo vergonhas e mais ainda, punições, serão moeda corrente fazendo com que a nova pessoinha saiba poder – ela mesma – avaliar aquilo que pode e aquilo que não pode. E, é preciso dizer que saber fazer uso deste crivo, tomar pra si a potência deste olhar interno, desta capacidade de avaliação, de tomadas de decisão, faz toda a diferença quando alguém quer se emancipar.

Mas, fazer funcionar este crivo é, da ordem da conquista. Conquista interna, psíquica de cada um. Está disponível, cabe a cada um conseguir acessar. Fazer uso. É um trabalho. Árduo. Psíquico, sobretudo. Às vezes significa bater muito com a cabeça na parede, rebelar-se, brigar com papai e mamãe, ir e vir, negociar e conquistar sua autonomia.

Fato é que, de qualquer maneira, acontece, muito amiúde, deste Olhar interno virar um carrasco implacável capaz de julgar a pessoinha dando a ela veredictos, muitas vezes, pesados. O tal “tribunal da consciência” é capaz de massacrar alguém, muitas vezes, muito mais que os outros “de fora”.

Incrível ver como muitos pacientes – analisandos – perdem força e vitalidade, deixam seus sonhos pra trás porque ficam presos à esse tipo de vigia que cobra em moeda de renúncia o desejo. Lá onde deveria ser uma trama de bons tratos de si consigo próprio pode tornar-se uma verdadeira praça de guerra, de condenação e onde a pessoinha poderia ser mais livre e solta e feliz ela acaba tendo que se atar junto ao poste que sustenta esse Olhar que, como já disse no início deste texto, existe em algum lugar escondido, escamoteado. Te olhando, oh tu, pessoinha...

E aí se faz a seguinte pergunta: “mas é possível livrar-se deste olhar?”. Bem, à rigor, jamais. Seria uma amputação excluir o olhar do Outro. Mas, outrossim, é bem possível mapear os movimentos deste olhar que parece ter, muitas vezes, uma musculatura ocular bem desenvolvida a ponto de não arredar pé e fincar suas bandeiras na base da força. Guerra!

Este olhar pode ser deslocado? Certamente! Isso pode acontecer por um processo interno onde a pessoa comece a dialogar com suas idéias mais recônditas e a negociar de forma mais malandra ou inteligente com este Olhar.

Trata-se de aprender a perceber que alguém goza neste olhar e que este alguém ou alguns são também, por mais incrível que pareça, partes da própria pessoinha.

Desta forma, uma psicanálise trabalha, através de associação livre, no sentido de levar o analisando a reconhecer, tatear, dialogar e mesmo desafiar este olhar que funciona muitas vezes como um juiz.

Uma Psicanálise – quando bem conduzida – pode levar alguém a ver aquilo que antes era escamoteado e de difícil acesso ( processo de desrecalcamento). Ao menos, ver com outros olhos, ver de outro ângulo e tal...

Uma Psicanálise é capaz, muitas vezes, de devolver à pessoa um olhar que ela própria nunca conheceu ou teve acesso. O olhar de si para si, de forma que neste movimento as pessoas, os objetos e as coisas desejantes sejam possíveis elos de ligação do desejo e não, primordialmente, função punitiva ou condenatória.

Para se transformar, é preciso o Olhar.

Fica de Olho!

Carlos Mario Alvarez

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