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NARCISO DE BAIXO PARA CIMA

Atualizado: 5 de dez. de 2022

É fundamental a gente olhar para o sentimento de inferioridade e ver como é que ele se constitui, como se cristaliza e pode ir minando a vida de uma pessoa. O que é o sentimento de inferioridade? É um sentimento que retorna como déficit para uma pessoa, ou seja, a pessoa olha e, no que ela olha, ela percebe um outro maior, melhor e mais inteligente, mais bem sucedido. E a pessoa faz uma leitura como se ela estivesse muito, muito abaixo. E não é apenas uma leitura, não. Por que? Porque isso, na verdade, vai construindo uma cultura interna em que a pessoa vai minando as suas forças. Então, o sentimento de inferioridade, ele é resultante de quê? Vou destacar dois pontos: uma imagem narcísica, fraca, frágil; e uma imagem corporal que não traduz, para a pessoa, uma sensação de bem-estar. Pensem o seguinte: uma pessoa que não se sente bem no próprio corpo, que se olha e não se gosta, que se olha e se reprova, ela está em maus lençóis. E isso pode se configurar muito cedo na vida de qualquer um.

Muito desse construto infantil é gerado na relação pai-mãe-filho, no núcleo familiar. Por isso eu digo a vocês: não é que a psicanálise queira ficar lembrando o passado, mas a gente sabe que as marcas que vão definindo a estruturação, a modelagem do psiquismo, são realmente feitas muito cedo. E são realmente feitas em função desses dois balizadores: pai e mãe. E por mais que não tenha pai e não tenha mãe, ou seja, mesmo que essas marcas estejam borradas, não importa! Há uma perspectiva de que uma criança se faz desejar, idealizar, respeitar e se circunscrever no espaço, e de que ela tem como referência o outro. E o que é uma imagem narcísica? É o conjunto de sensações, é o conjunto de percepções; mas imagem é, sobretudo, aquilo que a gente vê, sente. É uma Gestalt, é uma sensação e um todo em que a pessoa se vê como se ela estivesse olhando e não estivesse gostando, e dissesse/sentisse: está quebrado, está escangalhado, esse brinquedo de mim. É importante vocês entenderem isso, porque é assim que a pessoa se rejeita ― ela é a primeira a se boicotar, a se maltratar. A criança, o adolescente, sobretudo quando começa a surgir como gente, se não gosta de se olhar, de se perceber, se sente deslocado, e o sofrimento é abissal. A pessoa vai ficando sem capacidade de desejar, e mais para frente ela vai criando recônditos, ela vai fugindo, vai escapando. É muito comum isso acontecer na fase adolescente, e depois ela ir superando. Mas enquanto a pessoa não tiver sua imagem narcísica harmônica... ela se olha e se odeia. Enquanto sua imagem narcísica não estiver erigida em boa arquitetura interna/externa ela irá se sentir fraca. Isso dará lugar sempre a uma certa subserviência, ela persiste em ficar acovardada. E em ficando acovardada, ela é joguete nas mãos do outro, até mesmo quando o outro não o quer; pois se precisa dessa manipulação, dessa referência feita de baixo para cima, dessa comparação absoluta, como na música de Chico Buarque.


Nos teus pés, ao pé da cama [...]


Sem carinho, sem coberta

No tapete atrás da porta

Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar

Pra sujar teu nome, te humilhar

E me vingar a qualquer preço

Te adorando pelo avesso

Até provar que ainda sou tua


Carlos Mario Alvarez


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