A angústia como sinal: o corpo, o indizível e o trabalho da clínica
- Adrianna Setemy

- há 3 dias
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A angústia é, antes de tudo, um sinal. Um sinal de alerta.
Mas alerta de quê?
Se seguimos a formulação trabalhada por Carlos Mario Alvarez no curso “Como atravessar as angústias”, é preciso fazer um deslocamento importante: a angústia não começa no pensamento. Ela não começa como narrativa organizada. Ela se apresenta, primeiro, como algo que se sente. A angústia está no campo da sensação antes de estar no campo da representação.

Isso nos obriga a considerar que há experiências que acontecem no sujeito antes mesmo que exista um sujeito capaz de dizê-las.
Recentemente, meu filho de três anos me disse: “Mamãe, eu lembro de quando eu era grande e cuidava de você pequenininha.”
O que aparece aí não é memória no sentido cronológico. É um traço sensível de uma experiência de cuidado.
O corpo lembra. Mas o corpo não retém apenas experiências de acolhimento. Ele também registra aquilo que não pôde ser simbolizado. Aquilo que ficou no nível de uma experiência sensorial sem inscrição psíquica. E aqui começamos a nos aproximar de uma formulação central de Donald Winnicott: há experiências tão precoces e tão intensas que sequer chegam a ser pensadas. Ele as chama de agonias impensáveis.
Não se trata de angústias que o sujeito sente e não sabe explicar. Trata-se de algo ainda mais radical: experiências que acontecem antes da possibilidade de pensar. São vivências de terror absoluto ocorridas por falhas ambientais graves (falta de holding) nos primórdios do desenvolvimento que implicam em sensações de desintegração do Eu e e aniquilamento do ser.
E aqui está um ponto decisivo: essas experiências não desaparecem. Elas permanecem como marcas corporais, como traços que podem retornar mais tarde, muitas vezes sob a forma de angústias intensas e aparentemente sem sentido.
Ao longo do desenvolvimento, parte dessas experiências vai ganhando forma, linguagem, possibilidade de ser dita através de diferentes linguagens.
A criança fala brincando. É nesse ponto que Melanie Klein radicaliza a herança de Sigmund Freud ao sustentar que o brincar é uma forma de associação livre, assim como ocorre com o paciente que se deita no divã e fala. Isso porque a linguagem, antes de ser palavra, é gesto, é corpo em ação. Essa ideia já estava presente na obra de Freud desde o texto “Introdução ao narcisismo” (1914) e será desenvolvida ao longo de sua obra, culminando, em 1923, na obra “O Ego e o Id” em que afirma ser o Ego “primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície”.
O bebê não nasce com um corpo unificado. Ele nasce em um campo de sensações dispersas, sem contorno, sem integração. A percepção do próprio corpo como separado do mundo externo é, segundo Freud, o ponto de partida para a formação do ego. E é aqui que o cuidado materno entra como operação psíquica fundamental.
Donald Winnicott descreve aquilo que chama de cuidados materno-primários: um estado específico em que a mãe se encontra profundamente sintonizada com o bebê e suas necessidades primordiais.
A mãe suficientemente boa é aquela que pode se colocar nesse lugar de extrema sensibilidade, capaz de captar sinais de desconforto e agonia vivenciadas pelo bebê, antes mesmo que elas tenham forma.
E é nesse contexto que se tornam possíveis o holding e o handling.
É o holding que sustenta a continuidade do ser e o handling começa a organizar a experiência corporal do bebê.
Ao tocar e nomear o corpo do bebê ( “esse bracinho macio”, “esse pé cheiroso”, “esse nariz lindo”) a mãe vai oferecendo ao bebê algo como um primeiro mapa de si. Dessa forma, ela liga sensação e significado.
Da mesma forma, quando a pessoa que desenvolve a função materna interpretando o choro do bebê (“isso é fome”, “isso é frio”, “isso é cólica”) ela realiza uma operação fundamental: transforma sensação de desconforto e incômodo em algo passível de representação.
Trata-se, segundo Carlos Mario Alvarez, de uma tradução inaugural. O adulto empresta palavras para aquilo que o bebê ainda não pode dizer.
Mas essa tradução nunca é total. Sempre resta algo que não se deixa representar.
Segundo Winnicott, esse “resto” pode estar ligado justamente àquelas experiências mais primitivas, às agonias impensáveis, que não encontraram um ambiente suficientemente sustentador para serem integradas.
Esse resto permanece inscrito e retorna como angústia, como algo que insiste, uma sensação sem nome, um incômodo difuso, um mal-estar que não se organiza em narrativa.
Muitas vezes é com isso que o paciente chega à clínica.
Ele não chega apenas com aquilo que pode contar. Ele chega com aquilo que não pôde ser se quer pensado mas que é intensamente sentido.
Nesse sentido, o trabalho analítico não é apenas interpretar conteúdos já simbolizados. É, sobretudo, criar condições para que algo da ordem do impensável possa começar a ganhar representação. Mais que interpretar conteúdos, muitas vezes o trabalho analítico consiste em transformar sensação em experiência, dar forma ao que era puro excesso e oferecer, retrospectivamente, um tipo de sustentação que talvez tenha faltado nos primórdios do desenvolvimento emocional da pessoa.
Por esse motivo, do ponto de vista da Psicanálise, a angústia não deva ser rapidamente eliminada, porque ela é, justamente, o sinal de que há algo ali que ainda não encontrou inscrição. Algo que pede trabalho.
Dra. Adrianna Setemy - Historiadora e Psicanalista




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