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O GOSTO DA LÍNGUA: do falado ao falante

Não se pode tudo. Mas é possível tentar alguma coisa. Ou outra coisa diferente, quem sabe? O bom exemplo é aquele capaz de inspirar. Ele dá potência. Se ele não faz isso, se está às voltas com outra coisa. Por exemplo: por que filhos de famosos ou de pessoas bem-sucedidas ou habilidosas, tendem a ter mais dificuldade em se realizar? Porque a expectativa sobre eles é enorme: tem que ser tão bem sucedida quanto à mãe, tem que ser tão famosa quanto à mãe, tem que ser tão habilidosa quanto à mãe. No final das contas é uma cilada em que se cai. E o sujeito se torna (se cria como) o seu próprio embuste. A possibilidade de ser um pouquinho menos fóbico em relação às coisas, aumenta a capacidade de desmistificá-las. O pensamento obsessivo é uma mitificação; aquilo é inquestionável e é, portanto, inacessível. Esta é sua condição sine qua non.


Sombras

Portanto, não é fazendo força que se avança nos pensamentos obsessivos. Quanto mais força, mais aquilo vai pensar no sujeito. Tem uma brincadeira para organizar essa ideia que é: como fazer para que aquela ideia obsedante desapareça? O psicanalista não é um exorcista. O exorcista vem com o saber pronto para tirar a possessão, seu diligente hocus pocus. Já o psicanalista invoca o sujeito para conversar, ele próprio, com as entidades que o possuem.


As sombras são tão nossas quanto o corpo real; mas não é porque a sombra é virtual que ela não é nossa. E também não é porque o corpo é real que ele seja nosso. As coisas estão em transição. De quem é o corpo produzido em análise? É um corpo que toma lugar no corpo entre analista e analisando. Trata-se do corpo falante, do corpo presente, daquele corpo capaz de enunciar uma dúvida, um sonho. E o que não pode ser dito, retorna pela via do corpo em formato de somatizações, angústias, vícios e compulsões. E isso se dá porque a tecnologia que a vida pulsional dispõe é a linguagem.


Para nós, que somos falantes, o fundamental é saber falar a língua. Mas não a língua materna - esta tem que ser desconstruída, ultrapassada. Não desaprendida, mas poetizada. É preciso fazer metáforas na língua materna.


Equipe Psicanálise Descolada



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1 comentario


São sempre muito bons esses seus comentários Carlos! Obrigada. Bom dia!!!

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