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E QUANDO O CORPO GRITA MEMÓRIAS SILENCIADAS? UM ENIGMA CHAMADO HISTERIA

Atualizado: 27 de fev. de 2023

No texto da semana passada, “Corpo: território das memórias sensíveis, silenciosas”, vimos que não há despertar do sujeito se não houver uma recuperação das experiências vivenciadas corporalmente, que não puderam ganhar representação verbal, mas que se inscreveram no corpo e nele permanecem silenciosas, indizíveis, enquanto sensações cuja memória pode ser evocada, despertada. Essa semana continuaremos a falar dos modos de subjetivação expressos através do corpo, a partir da história de suspense narrada por Machado de Assis no conto “O relógio de ouro”. A literatura, assim como a psicanálise, é uma forma de subjetivação. Nesse conto, Machado de Assis dá visibilidade à insatisfação da dócil e tranquila Clarinha, cujo corpo gritava silêncios que, de outra forma, não poderiam ser ditos: “Clarinha não estava na alcova quando Luís Negreiros ali entrou. Deixou-se ficar na sala, a folhear um romance, sem compreender muito nem pouco ao ósculo com que o marido a cumprimentou logo à entrada. Era uma bonita moça esta Clarinha, ainda que um tanto pálida, ou por isso mesmo. Era pequena e delgada; de longe parecia uma criança; de perto, quem lhe examinasse os olhos, veria bem que era mulher como poucas. Estava molemente reclinada no sofá, com o livro aberto e, os olhos no livro, os olhos apenas, porque o pensamento, não tenho certeza se estava no livro, se em outra parte. Em todo o caso parecia alheia ao marido e ao relógio.”

Assim como Ana Karenina, de Tolstói, e madame Bovary, de Flaubert, Clarinha é a heroína do conto “O relógio de ouro”, que conta a história de um relógio que se converteu no cronômetro que marcou a contagem regressiva do casamento de Clarinha e Luís Negreiros: “Clarinha acabava justamente de ler uma página e voltava a folha com ar indiferente e tranqüilo de quem não pensa em decifrar charadas de cronômetro. Luís negreiros encarou-a; seus olhos pareciam dois reluzentes punhais. – Que tens? perguntou a moça com a voz doce e meiga que toda a gente concordava em lhe achar. Luís negreiros não respondeu a interrogação da mulher; olhou algum tempo para ela; depois deu duas voltas na sala, passando a mão pelos cabelos, por modo que a moça de novo lhe perguntou: – Que tens? Luís negreiros parou defronte dela. – Que é isto? disse ele, tirando do bolso o fatal relógio e apresentando-lho diante dos olhos. Que é isto? repetiu ele com voz de trovão. Clarinha mordeu os beiços e não respondeu. Luís negreiros esteve algum tempo com o relógio na mão e os olhos na mulher, a qual tinha os seus olhos no livro. O silêncio era profundo. Luís Negreiros foi o primeiro que o rompeu, atirando estrepitosamente o relógio ao chão, e dizendo em seguida à esposa: – Vamos, de quem é aquele relógio? Clarinha ergueu lentamente os olhos para ele, abaixou-os depois, e murmurou: – Não sei. Luís negreiros fez um gesto como de quem queria esganá-la; conteve-se. A mulher levantou-se, apanhou o relógio e pô-lo sobre uma mesa pequena. Não se pode sofrear Luís negreiros. Caminhou para ela, e segurando-lhe nos pulsos com força, lhe disse: – Não me responderás, demônio? Não me explicarás esse enigma?

Clarinha fez um gesto de dor, e Luís Negreiros imediatamente lhe soltou os pulsos que estavam arrochados.


(...)


Clarinha amava ternamente o marido e era a mais dócil e afável criatura que por aqueles tempos respirava o ar fluminense. Nunca entre ambos se dera o menor arrufo; a limpidez do céu conjugal era sempre a mesma e parecia vir a ser duradoura. Que mau destino lhe soprou ali a primeira nuvem?”


Com seus estudos sobre a histeria, Freud mostrou, ainda no século XIX, que o feminino pode ter voz, desejo e insatisfação dentro da matriz patriarcal.

No final do século XIX, Viena era considerada a capital cultural do mundo e Freud expressou esse espírito de seu tempo ao inventar uma lógica discursiva para compreender o funcionamento psíquico: a psicanálise. O aparelho psíquico descrito por Freud em seus textos é fruto do que Foucault denominou como “construção imaginativa”. Com a intenção de convencer a respeito da relação de descontinuidade entre psicanálise e psicologia, Freud construiu e transmitiu sua teoria de forma escrita. Por isso, é fundamental que a introdução ao saber psicanalítico se dê a partir dos próprios textos escritos por Freud, segundo o qual, a psicanálise consistia em uma ciência que não estava restrita a nenhum campo de conhecimento específico, embora, ainda nos dias de hoje, as disputas em torno da regulamentação da psicanálise como profissão levem a uma disputa entre diferentes disciplinas (como por exemplo, a Medicina e a Psicologia) pelo campo psicanalítico.


Atualmente, segundo Elizabeth Roudinesco, pode-se afirmar que desde o seu nascimento, a psicanálise caminha para o que hoje denominamos como ciências humanas, mas a partir do modelo científico predominante no século XIX, que era o modelo das ciências naturais, fundamentado na filosofia positivista.De acordo com esse modelo científico, Freud entendia que o trabalho do analista poderia ser descrito como semelhante ao do químico. Na sua concepção, ambos trabalham a partir de elementos avulsos, separados, individualizados. A diferença é que o químico combina esses elementos a partir de fórmulas exatas. Já na psicanálise, os elementos que surgem, por exemplo, através dos sintomas, sonhos, chistes, lapsos e atos falhos serão combinados e, possivelmente, interpretados pelo analista a partir da livre associação. De acordo com o método investigativo / interpretativo proposto por Freud ao longo de sua obra, a tarefa do analista consiste em interpretar o inconsciente a partir desses elementos. Nesse sentido, a psicanálise não surgiu como uma ciência que visava a cura, tampouco a normatização ou adaptação do indivíduo à sociedade. Ao contrário, caberia ao psicanalista a tarefa de dar sustentação à vivência do conflito que está em cena durante o processo de análise a partir do estabelecimento da transferência entre o paciente e o analista. Portanto, a psicanálise inventada por Freud não se propunha a resolver um conflito, mas a entender como o sujeito pode “lidar com esse conflito”.


A psicanálise foi inventada por Freud na tentativa de formular uma resposta para os casos de adoecimento que não podiam ser explicados pela medicina anátomo-clínica. Nesse sentido, pode-se afirmar que a clínica psicanalítica nasceu com a clínica da histeria, ou seja, no limite da Medicina em responder aos sintomas sem razão orgânica verificável que faziam o sujeito sofrer. Por isso, a histeria ocupa lugar central na fundação da psicanálise, pois foi a partir dos “enigmas” e “mistérios” dos sintomas sem base orgânica observados nas mulheres histéricas internadas no Hospital Salpêtrière (Paris), onde Freud realizou estágio com o médico Jean-Martin Charcot, que teve início a construção do edifício teórico da psicanálise. Nesse sentido, foi a partir da observação das mulheres histéricas que Freud pode elaborar a ideia de que, para a psicanálise, não importa o corpo biológico, mecanicista, mas o corpo erotizado, libidinizado.


Para Freud, a histeria revelava-se não como uma patologia, mas como um modo de subjetivação expresso através do corpo. Ou seja, para ele a histeria não era uma doença, mas um modo de estar no mundo, de fazer laços e de operar com o desejo. Na psicanálise freudiana, a histeria é um mecanismo de defesa. Mas defesa de que? De um excesso com o qual o psiquismo não conseguiu lidar, e esse excesso ao qual o psiquismo não conseguiu reagir pode ser externo ou interno. Excesso, por exemplo, de falta. A histeria é sempre uma denúncia da falta do outro, denúncia de falta de amor, de olhar, de afeto, de respeito, de reconhecimento. A histeria pode ser entendida, portanto, como manifestação de revolta expressa nos corpos. Na histeria, o corpo é território de protesto, portanto, o sintoma do sujeito histérico é sempre um recado endereçado ao outro, vestígio do seu desejo insatisfeito.


Na concepção de Freud, havia uma trama de sentido na narrativa histérica. Não podendo ser lida a partir de exames anátomo-clínicos, Freud se deu conta de que essa trama, narrada através do corpo pelos sintomas, tinha a ver com uma história vivenciada pelo paciente que sofre. Mas quais seriam as formas de acessar essa trama? Primeiro, a partir do sintoma. Por esse motivo, o psicanalista não poderia se deixar iludir e enredar pelo sintoma, pois o sintoma seria apenas a fumaça, que indica que há fogo. Além disso, o sintoma do sujeito histérico é plástico, modifica-se, desloca-se, mesmo assim, é sempre expressão do funcionamento do psiquismo do sujeito. O sintoma passa então a ser lido como uma evidência da história familiar da pessoa, que encobre partes da história que foram recalcados. Não caberia ao psicanalista, portanto, a função de curar o sintoma, mas a trama narrativa da história do paciente. A partir dos casos relatados por Freud e Breuer nos “Estudos sobre a histeria”, Freud se deu conta de que há um saber, uma verdade sobre o sintoma que a própria pessoa histérica possui, embora nem ela se dê conta disso. O corpo do sujeito histérico exibe a história erógena desse sujeito, vivenciada sobretudo no âmbito familiar. O sintoma é uma satisfação substitutiva, é uma forma de satisfazer, de descarregar, de expressar e simultaneamente esconder os conflitos e impasses, sobretudo com a sexualidade, mais especificamente, com a feminilidade.


Masculino e feminino referem-se, na psicanálise, a posições que podem ser frequentadas tanto por homens como por mulheres. Na concepção de Freud, o feminino que há em todos nós, independente de questões de sexo e gênero, aponta sempre para algo de indomado, incontrolável, não domesticável, de impossível apreensão pelo saber. Isso porque, segundo Freud, faltava uma representação do sexo feminino no inconsciente, dado que esse era indicado por referência ao que não fosse masculino. Essa ausência de representação do sexo feminino no inconsciente, constituído a partir da referência ao que falta, ao que não é, aproximava o feminino do silêncio, do que é alheio a representação, de algo relacionado aos mistérios da natureza. Assim, o sintoma histérico revela e esconde, como um véu, o conflito da feminilidade em torno da sua impossibilidade de totalidade, de unidade, de absolutização, em função da falta que a define psiquicamente. A histeria seria uma resposta que a mente humana dá ao excesso de impossibilidade do sexo, como condição da vida em sociedade, de inscrição na cultura.


Para uma pessoa histérica, a função da análise seria decifrar e recodificar a cena sexual, mais especificamente, as fantasias sexuais que se constituem muito primitivamente a partir da erotização das figuras parentais. Nesse sentido, a histeria pode ser entendida como uma formação reativa do inconsciente frente a um desejo que é, por determinadas circunstâncias (culturais, familiares, sociais, religiosas), proibido, inacessível. Por isso, falar de histeria hoje não é a mesma coisa que falar de histeria na passagem do século XIX para o século XX, quando Freud publicou seus primeiros textos sobre histeria e o “Caso Dora”. A partir do estudo da histeria, Freud recolocou o problema do mal na contemporaneidade (anteriormente o mal era o demônio, algo externo ao sujeito, que poderia ser “retirado” do corpo através de exorcismo ou de algum procedimento médico). Para Freud, o mal estava dentro da pessoa, no que posteriormente denominou de inconsciente, e era preciso dar voz a ele, afinal, todos carregamos dentro de nós um “eu bom” e um “eu mau”.


Referências:


ASSIS, Machado de. O relógio de ouro. Histórias da meia-noite. Obras completas em quatro volumes, p. 1870-1889, 2008.


Freud, S. (1969). Estudos sobre histeria (Vol. 2). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1895).


Freud, S. (1969). A etiologia da histeria (Vol. 3). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1896a).


Freud, S. (1969). Histeria (Vol. 1). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1888).


SCOTTI, Sérgio. A histeria em Freud e Flaubert. Estudos de Psicologia (Natal), v. 7, p. 333-341, 2002.


Coluna Leituras de Si - Por Adrianna Setemy

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