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DESAMPARO E CASTRAÇÕES

A condição humana estará sempre posta sob ameaça. Isto tem muito a ver com o fato de que não temos idéia do que nos acontecerá nos próximos momentos e, por isso, vivemos sob uma certa incerteza, ainda que não evidente ou declarada. Mesmo que sejamos cuidadosos ou muito capazes de nos cuidar e orientar não há garantias de que não possamos – por acaso, azar ou infortúnio - nos perder, nos esfacelar ou mesmo acabar.

Claro que, dentro de certos padrões de organização de vida, sabemos também que já avançamos enquanto civilização a ponto de poder termos alguma previsibilidade de que poderemos até sonhar e esperar por uma certa longevidade se nos conduzirmos no sentido de nossa preservação, fazendo com que busquemos nos rodear de cuidados, hábitos e práticas capazes de nos dar possibilidades de continuidade. Isso de fato é o que a humanidade – ou a vida, de uma maneira geral – conquistou ao longo de muito trabalho e resistência. É próprio do que é vivo lutar para manter-se vivo e para transmitir o código da vida, para replicar-se, reproduzir-se. A vida é imperiosa e mesmo que UM pereça, Outro estará em seu lugar. E assim se sucedem esforços para que a vida se mantenha de uma forma ampla (e não necessariamente individual) à despeito de todas as ameaças e revezes.

Diante disto, diante de nossa incalculável fragilidade, precariedade e mesmo relativa impotência, estamos diante do desamparo.

Nascemos desamparados e se não houver cuidados e acalentos, pereceremos em horas. Ainda que sejamos cuidados, a força da entropia – aquela mesma que deu a Freud condições de postular sua Pulsão de morte – esta lei que determina que tudo se esvai na linha do tempo, será implacável e terminará com nossos objetos, objetivos, nossas conquistas, nossas posições, nossas expectativas, sonhos e, por fim, nossas vidas.

É assim. Não há o que não termine. Cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, tudo se desfaz. E, algo, em seguida, se re-fará de um outro lugar, de uma outra forma. Reversões, inversões, alternações e uma série de outros dispositivos nos fazem crer que a experiência de tudo que existe é em eterna movimentação e transformação.

A castração – idéia tão importante na teoria freudiana – é este dispositivo que primará por inscrever os limites do homem diante de seu gozo – isto é – de sua vontade de manter-se eterno e pleno – permitindo com que cada um possa aceitar seus limites, reconhecer sua potencial finitude e, por isso mesmo, poder embarcar em seus desejos de acontecimento e realização.

Por isso, à despeito do desamparo – condição inequívoca – cabe o advento das castrações que - a partir de recortes, interrupções e inscrições de limites - permitirão mobilidade e poder de realização, ainda que parcial, a cada um.

Portanto, para amenizar a sensação de desamparo, para nos dar a chance de fazer coisas, concretizar projetos e gozar parcialmente de bons momentos e feitos, a inscrição (aceitação) das bordas, dos limites, dos “nãos”, dos “cuidados!”e das renúncias, é necessário que nos deparemos com as castrações e – melhor ainda – que saibamos como delas fazermos do impossível Real, possíveis de realidade vivida, experimentada e mesmo sonhada.

Para não sucumbirmos ao horror do desamparo, contamos com aparatos que nos mostrarão que, à despeito de nossa fragilidade ou finitude, ainda assim, somos capazes de inventar e lutar por nossos desejos.

Carlos Mario Alvarez

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